29 abril, 2010 7 comentários

Lidando com o inusitado



Sempre gostei de situações inusitadas com pessoas desconhecidas. Mas, conversar com elas nunca foi o meu forte. Portanto, quando eu passo mais de 20 minutos conversando animadamente com uma pessoa que nunca vi é de se estranhar.

Ficar sozinha durante muito tempo também não faz muito o meu estilo, ainda mais quando preciso esperar quase 2h sentada no corredor da faculdade. Talvez esse tenha sido o motivo do que aconteceu essa semana. Às vezes, é fato, tudo conspira para que esse tipo de coisa aconteça. E, provavelmente, não foi a toa que naquele dia minhas aulas tenham terminado 1h30 antes do horário normal.

Como era o único dia da semana em que tenho carona de volta para casa, sentei-me a fim de esperar. Não havia levado nenhum livro e ninguém conhecido e querido o suficiente estava à vista.

Fiquei preocupada.
Teria que arrumar algo para fazer.

Abri meu caderno e comecei a escrever uma música que estava na minha cabeça. Sentada com as pernas cruzadas, as pessoas que passavam pelo corredor sempre olhavam para mim ali. Certamente, a cena deveria ser o cúmulo da falta de amigos ideal da solidão.

Uma garota sentada, sozinha, escrevendo algo em seu caderno. Daria uma boa foto, pelo menos (mentira).

Comecei a notar uma movimentação diferente. Apesar de parecer inerte, eu quase nunca consigo me desligar completamente do mundo à minha volta. Vi um garoto encarando a porta do laboratório de fotografia. Ele olhou pra mim e perguntou se eu estudava ali, ao que respondi que sim. A próxima pergunta era se a pessoa responsável pelo empréstimo das máquinas voltaria logo.

Dei uma risadinha antes de responder. Afinal, encontrar os funcionários na faculdade é algo totalmente impossível extraordinário. Ainda mais no laboratório de fotografia.

Respondi que não saberia dizer, já que os horários são meio não cumpridos diferentes ali. A resposta pareceu satisfatória, já que ele se despediu e foi embora.

Passei mais alguns minutos pensando e alguns colegas compadecidos pela minha solidão trocaram algumas palavras comigo.

O mesmo garoto, então, retornou.
Dessa vez com um pacote de amendoim na mão (eco).
Olhou para a porta ainda trancada.

Fiquei observando a cara de desapontamento que ele fez (como se tivesse esperado 1 semana para voltar ao mesmo lugar). "Será que vai abrir hoje?", foi o que ele disse. Ri novamente e disse que, provavelmente, não. A funcionária certamente já teria saído para o almoço.

Agora era indignação o que estampava seu rosto. "Já são quinze pras onze, né", eu observei. Ele se sentou ao meu lado e começamos a conversar. Primeiro o que ele fazia ali e porque precisava tanto de uma máquina. Conversamos por quase 30 minutos. Se alguém passasse por ali, acharia que éramos velhos conhecidos. Apesar de só descobrirmos nossos nomes no final da conversa quando, desapontado, ele se levantava para ir embora, definitivamente.

"-Qual é mesmo o seu nome?
- Juliana.
[...]
- E o seu?
- Lucas."

Isso foi o que mais me chocou.
-beijocomenta;*
23 abril, 2010 4 comentários

Textos perdidos


Esses dias, dando um limpa em um dos meus emails, descobri um email antigo que havia enviado para mim mesma há mais de 6 meses. Nele só estava anexado um documento do bloco de notas. Descobri um texto que escrevi e já nem me recordava. De fato, ainda não me lembro bem em que circunstâncias escrevi o bendito ou porque o fiz. Mas, achei belo, confesso, e decidi compartilhar aqui.

Espero que gostem!

Sonhos

Acordou injuriada naquela manhã de domingo. Um sonho dispensável a visitara na noite passada, fazendo-a relembrar coisas e situações que ela imaginava já há muito ter esquecido. Diante daquele mal-estar repentino que o agradável sonho-dispensável lhe trouxera, preferiu ficar na cama até que o sol fizesse sentido lá fora. Não que fosse cedo demais. Aliás, segundo seu relógio marcava, já passavam das 10h. O sentido da luz pra ela, naquele momento, baseava-se muito mais na escuridão que havia tomado conta de seu interior. Como sempre, ela só desejava ser resplandecente, de novo. E que sua face fosse como um espelho que refletisse a luz do sol e não um tapume, como se sentia até então. Mas, ficar deitada relembrando e revivendo cada um daqueles momentos irreais a dilacerava. Parecia que o sonho a havia confortado durante toda a noite. De fato, ela não acredita que os sonhos sejam tão rápidos e instantâneos, como dizem os estudiosos. Sua noite havia durado uma eternidade. Uma eternidade deliciosa, mas que, como em toda manhã, havia acabado e trazido toda a realidade fria de volta. O mundo dos sonhos é tão maravilhoso e doce, mas é também cruel demais com os sonhadores. Por que ter a oportunidade de vivenciar uma realidade tão mais bela e atraente, se quando o dia nasce tudo se desfaz e retorna àquela existência medíocre e nula? Nos sonhos todos conseguem o que desejam, são o querem de fato e agem de acordo com suas vontades e não por necessidade. Talvez, essa seja a maior, senão a única, maneira de a liberdade expressar-se em toda sua excelência. Afinal, no campo dos sonhos ninguém é de ninguém e tudo pertence a um só.

-beijocomenta;*
19 abril, 2010 12 comentários

Coerência


Outro dia eu estava no ônibus.
O que não é novidade para ninguém, claro.

Voltava da faculdade.

Uma senhora muito grossa gentil decidiu que entraria antes de todos, afinal, ela queria sentar. Então ela furou a fila (se é que existe fila pra entrar num ônibus em pleno Terminal da Praça A, se ainda fosse o do Cruzeiro eu acreditava) e empurrou uns quantos e conseguiu o que queria: um banco para sentar a poupança descansar as pernas. É claro que a tudo isso eu já estou acostumada.

Mas, o que me chamou a atenção não foi exatamente isso. Foi outro fator que só notei quando já estava dentro do ônibus com meus materiais na mão.

A senhora, protagonista deste causo, usava um bottom. Chamou minha atenção, principalmente, pelo fato de eu já conhecer aquele bottom. Talvez alguns de vocês já o tenham visto (é claro que sim). Olhei várias e várias vezes e li a informação ali escrita repetidas vezes enquanto avaliava a cena.

Bom, o crachá que ela usava era um daquele estilo Herbalife. E nele estavam impressas com letras garrafais bastante legíveis as seguintes palavras:

"Quer perder peso? Pergunte-me como!"

Até aí você pode até estar se perguntando o que tem a ver. Até porque, eu mesma não tenho nada contra esse tipo de método de emagrecimento. A minha única implicância é que... Bom, a dita senhora não era um exemplo de saúde, sabe.

Nem de longe, se quer saber.
Muito menos de magreza. Isso é fato.

E alguém que anda com um outdoor bottom preso à roupa dizendo que é o indicado para dar dicas de como manter a boa forma, mas que não aparenta ser, sinceramente, não é lá muito o meu referencial de propaganda de qualidade, se é que me entendem. Não que o produto não seja bom, mas certamente aquela senhora não usa o que vende.

E aí a tal da credibilidade da mercadoria vai lá no fundo. Até eu, que não sou lá um exemplo de saúde, venderia mais do que ela, provavelmente. É só o fato de que uma pança daquelas aquelas gordurinhas localizadas, realmente, não passarem a mesma mensagem do crachá.

A tal da contradição é mesmo um problema.

-beijos'sejamcoerentes;*
13 abril, 2010 5 comentários

Das aulas de música



Primeiro vem a fase de inscrições. Correria pra ser um dos primeiros a se inscrever e, pelo menos, tentar garantir uma das vagas. Depois vêm os testes. Aquelas pessoas conhecidas amedrontam alertam a todos sobre a dificuldade da prova de aptidão. A lista de aprovados sai e verifica-se que o nome está lá, afinal. Daí vêm as matrículas e logo começam as aulas, propriamente ditas.

Não sei quanto a outros lugares do país, mas aqui aulas de música são incomuns. A não ser para aquelas pessoas que nasceram com a cara virada pra Lua pra não dizer outra coisa e que tem caixa pra bancar as escolinhas básicas daqui. É claro que o tal do violão rola solto, afinal é a terra do sertanejo - nem eu discuto. Mas, para quem gosta e pretende ter uma formação decente, não é qualquer revistinha de banca que garante o aprendizado.

Com o mínimo de conhecimento que adquiri sobre teoria musical ao longo da vida, as primeiras aulas foram de difícil digestão.

Uma pequena sala.
Uma turma enorme.
Dois ventiladores discutíveis.

Nada estava colaborando para que eu permanecesse naquelas aulas curtas e sem sentido, a não ser a minha promessa de que mais da metade da turma desistiria até o segundo mês de aulas.

Dito e feito.

Mais de 30 pessoas não têm frequentado às aulas e quem não fizer a avaliação está fora. Estou satisfeita, não nego. O ritmo das aulas melhorou bastante e até aprendi coisas novas - o que não havia acontecido até 3 semanas atrás.

As aulas de música são algo interessante, talvez pelo tanto de gente, literalmente, esquisita que aparece. De repente é um sonho de menino que cada um deles têm - vai saber. Depois tem as aulas de coral, que seriam bem melhores caso o professor não fosse um espécime humano muito do questionável. Nada contra, sério. Mas, se for pra emburrecer, prefiro prosseguir com o tiquinho de inteligência que possuo.

Desisti das aulas de coral. É que, tipassim, si para mim nasceu si e vai morrer si; a renomeação de notas musicais vai além do que a minha capacidade mental dispõe. E como não pretendo cortar as unhas mesmo possuo habilidade motora, as aulas de violão coletivo também não me atraíram. Por enquanto, serei toda teoria; a prática fica para os ensaios do coral de pré-adolescentes e da equipe de música lá da church.

Ontem, fiquei sabendo que temos prova na segunda. E isso nem me desanimou. O chato mesmo, é que agora tem a tal da chamada. Minha faltas serão agora reguladas.

-beijosmusicados;*
06 abril, 2010 10 comentários

Como ser parede sem ser


Eu me lembro de quando fui caloura.

Não faz muito tempo ou sim e foi uma época boa, na medida do possível. Tudo novo e diferente. Era uma desconhecida e tratada como tal. Não ligava muito para as disciplinas teóricas. Só o que tinha importância eram as notas e a presença garantida na chamada.

Esse tempo acabou mais rápido do que eu pude imaginar, apesar de ainda hoje ser considerada caloura por aqueles veteranos que insistem em não concluir o curso. Mas, os papéis se inverteram de repente. E agora as preocupações são da proporção de quem pode orientar meu TCC e em que irei trabalhar quando enfim atirar o capelo pra cima.

Afinal, em janeiro próximo, não serei mais universitária. Não vou mais pagar meia entrada no cinema a não ser quando conseguir enganar os lanterninhas com a carteirinha da biblioteca. Em breve serei só mais uma do bando de diplomados sem emprego. A ideologia é quebrada e os sonhos de uma carreira sólida começam a desmoronar a não ser para aqueles que tem Q.I. - leia-se Quem Indique, course.

Apesar de tudo isso parecer péssimo, é ótimo observar aqueles que estão apenas começando. Parece discurso de velha carcomida, mas nem é, juro. Resolvi me aventurar numa turma de calouríssimos. Meus amigos acham que eu sou doida ou, no mínimo, muito corajosa. Mas, o resultado tem sido boas risadas. 

É incrível como quando somos calouros, achamos que devemos ter um tipo de respeito com os veteranos. Como se eles fossem uma espécie de semi-deuses intocáveis da faculdade calouros que lerem isso, continuem tratando sua veterana com respeito, por favor.

A inversão de papéis a que me referia é justamente esta. Porque um dia eu estive do lado em que aqueles mais de 50 novos universitários estão hoje e também cheguei a achar que veteranos nunca poderiam ser alcançados. É claro que hoje, meus veteranos estão formados e empregados pelo menos a parte deles que merece e trabalhou por isso.

E eu estou numa sala cheia de calouros.

Com seus protestos pacíficos pelo ar condicionado e as conversas "úteis" durante as aulas.
Com professores dando sermões sobre fazer silêncio durante a explicação e textos didáticos cheios de conceitos totalmente desinteressantes pra eles, claro. eu gosto e muito.
Com macacos invadindo a sala de aula para roubar vasilhas de lanche e risadas infames devido aos vícios de linguagem do professor.

É quase como voltar ao 1º período, mas como se eu apenas fosse uma parede observando. Uma parede importante e que pode ser ouvida quando quer. Uma parede que chama a atenção e arranca respeitosos "bom dia" quando chega. É claro que só o fato de haver uma parede na Facomb, certamente, já chamaria muita atenção. Testemunhem os nativos do Campus II.

-beijoscalourísticos;*
 
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